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soberania digital brasileira:
sobrevivendo a ataques internos e externos
por: joão asafe, lucas veras e mateus gomes
a carta
“Se o senhor desejar abrir seus mercados comerciais, até agora fechados, para os Estados Unidos e eliminar suas tarifas, políticas não tarifárias e barreiras comerciais, nós poderemos, talvez, considerar um ajuste nesta carta. Essas tarifas podem ser modificadas, para cima ou para baixo, dependendo do relacionamento com seu país. O senhor nunca ficará decepcionado com os Estados Unidos da América.”
Trecho da carta de Donald Trump.
“Os Estados Unidos têm conosco superávit na balança comercial, tanto de serviços quanto de bens. O Brasil não é problema para os Estados Unidos. [...] Nós temos 200 anos de amizade com os Estados Unidos. Então, não se justifica e o mundo econômico precisa de estabilidade e de previsibilidade”
Alckmin em entrevista à Agência Brasil, 2025.

Foto: Júlio César Silva/MDIC
A resposta do governo federal apresentou ao mundo os dois lados da diplomacia brasileira; houve conversas e debates amistosos, mas também houve um argumento ferrenho contra as alegações estadunidenses. As informações trazidas pela carta — e posteriormente pela medida oficial para justificar o tarifaço — eram infundadas, fato que Geraldo Alckmin, vice-presidente, afirmou logo após os anúncios:
Uma relação de superávit representa geralmente, em termos econômicos, o objetivo de qualquer relação comercial de exportação e importação de um país, onde o saldo financeiro da nação no que ela exporta está maior do que o importado, isto é, o comprado de fora. Assim, uma pergunta básica pairou no ar da mídia e do governo: o que os Estados Unidos querem dizer com uma tarifa econômica num sistema onde eles estão “ganhando”? Se a motivação é política, então restaria ao governo brasileiro descobrir qual era o objetivo americano com essa medida.
Em poucos dias após o anúncio do tarifaço, as redes sociais do governo brasileiro apresentaram uma nova abordagem para o tema. O governo parece ter percebido que um dos motivos velados das tarifas impostas era desestabilizar o governo; dessa forma, o país precisaria se mostrar forte, corajoso e soberano. O Brasil precisava mostrar a sua soberania.

Postagem feita no Instagram oficial do presidente Lula | Captura de tela: @lulaoficial
A palavra “soberania” se tornou quase um novo lema do governo. Em duas semanas, a palavra quase atingiu o pico de popularidade no Google Trends, ferramenta que monitora a popularidade de termos usando uma escala de 0 a 100; “soberania” chegou a atingir a nota máxima de pontos nos dias seguintes ao tarifaço. As propagandas veiculadas principalmente no Instagram oficial do governo federal apresentavam imagens e ilustrações contendo a palavra escrita diversas vezes em vários estilos.

Gráfico feito a partir de dados do Google Trends; aqui, pode-se ver a flutuação do termo até o seu ápice total no anúcio do tarifaço.
A carta de Donald Trump, entretanto, possuía um ponto impossível de não se notar. Localizada bem no meio, a seguinte frase diz: “...Supremo Tribunal Federal do Brasil, que emitiu centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS a plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com multas de milhões de dólares e expulsão do mercado de mídia social brasileiro”. A acusação — gravíssima, diga-se de passagem — aponta que o Brasil estaria ilegalmente interferindo no ambiente digital (das redes sociais) dos Estados Unidos. As tais “interferências”, como logo foi confirmado pela mídia e pelo governo, ocorreram totalmente dentro da lei brasileira; estaria Trump então negando totalmente a legislação do país e ignorando as ações legais e autônomas brasileiras sobre o meio digital? Tudo isso acendeu uma nova discussão ainda nesse mesmo campo: será que o Brasil possui soberania digital?
o que é soberania?
Mas, o que realmente significa “soberania” e por que o país de repente deveria exercê-la? Aliás, o que significa uma nação ser soberana digital? Para sanar essa e outras dúvidas, nós tivemos o prazer de entrevistar Reynaldo Aragon Gonçalves, jornalista e doutor em comunicação que faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT-DSI):
"A soberania digital é a capacidade de uma nação controlar, desenvolver, proteger sua infraestrutura, seus dados, suas tecnologias e suas decisões no ambiente digital de forma autônoma, segura e orientada pelo interesse público"
Reynaldo Aragon
O interesse público parece ser a palavra-chave da discussão. Não existe soberania sem que os interesses da população como um todo sejam atendidos e respeitados internamente no país e internacionalmente. Essa e outras são as afirmações basilares para entender o conceito de soberania: o sustento da ordem interna e internacional do país. Basicamente, é o que garante uma nação manter um equilíbrio entre sua população e seus governantes, ao mesmo tempo em que seu território e sua existência são respeitados por outras nações; e no ambiente digital isso não é diferente. Reynaldo afirma que “no século XXI, a soberania não depende [mais] apenas de fronteiras físicas”. No mundo digital, as “barreiras” são extremamente voláteis e o que hoje está seguro, amanhã pode estar a mercê de ataques hackers, vazamentos ou outros crimes virtuais, incluindo de outras nações.
Porém, o ambiente digital não é composto apenas de sites, redes sociais e outras coisas “intangíveis”. Para toda a conectividade digital existir, é preciso que haja infraestrutura — e uma boa infraestrutura. Cabos de fibra ótica, servidores, supercomputadores… todas essas tecnologias complexas e inexplicáveis para uma pessoa comum, mas que possuem um ponto em comum: são caras e difíceis de manter. E a verdade nua e crua é que o Brasil não possui autonomia própria na gestão e produção dessas tecnologias.
Então, como você [pode] pensar soberania digital se você não tem capacidade própria de ter seus próprios data centers, de ter sua própria nuvem, de ter sua própria rede de fibra ótica ou satelital, para que você consiga ter todo o controle da cadeia [de produção]?
Reynaldo Aragon
a indústria
Para que, por exemplo, sites pesados possam ficar online 24 horas por dia, é necessário que eles estejam hospedados em servidores, que são, essencialmente, supercomputadores extremamente potentes que conseguem manusear quantidades gigantescas de dados; e esses servidores não são nem um pouco fáceis de se produzir. Você talvez já tenha ouvido falar em semicondutores, os materiais quase mágicos que dão origem aos tão cobiçados — e caros — chips de computador. Eles e os computadores fazem um par perfeito, praticamente não existem sem um e o outro; esses materiais, entretanto, requerem uma cadeia de produção tão complexa e engenhosa que poucos países no mundo conseguem ter.


Taiwan e outros países vizinhos como China, Japão e Coreia do Sul dominam o setor mundial de produção de semicondutores de uma maneira quase monopólica; precisaríamos de outra reportagem com milhares de palavras para explicar a fabricação de uma tecnologia milhares de vezes menor que um fio de cabelo (alguns microchips modernos já chegam a marca de 3 nanômetros). O que você precisa entender desse tópico é, novamente: o Brasil não possui essa capacidade de produção.
Se o problema fundamental é infraestrutura, esse debate ficará para outro momento devido à sua complexidade; porém, o que efetivamente consegue ser debatido — e, na realidade, já está sendo — é que o Brasil, burocraticamente e legislativamente, possui a possibilidade de construir uma soberania informacional de dentro para fora, impondo uma presença jurídica. Mas, talvez surja novamente aquela pergunta do início: para quê exatamente construir essa soberania informacional com leis e normas? Ora, se não temos a capacidade infraestrutural, não deveríamos apenas seguir por outros caminhos?
A resposta é complexa e para isso devemos rever o conceito de soberania lá do começo da reportagem e retificá-lo para deixá-lo um pouco mais condizente com a atual geopolítica: o que se percebe, nos dias de hoje, é que empresas privadas com capitais imensos querem, e muitas vezes conseguem, controlar o Estado; Reynaldo Aragon nos dá um exemplo disso:
Hoje nos Estados Unidos, Pentágono, FBI, CIA, Departamento de Estado, Departamento de Agricultura, de Recursos Hídricos, de Economia, todos eles, todos esses departamentos que são do Estado, são a infraestrutura do Estado, são dominadas por essas corporações privadas que através do seu sistema fazem a gestão pública.
Reynaldo Aragon
Deixar empresas privadas terem o controle de setores dos governos tem se mostrado uma ação gravíssima, e a comprovação disso está na própria carta escrita por Trump para justificar as tarifas.
“...Supremo Tribunal Federal do Brasil, que emitiu centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS a plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com multas de milhões de dólares e expulsão do mercado de mídia social brasileiro”
Trecho de carta de Donald Trump
a tecnologia na política
Por que um governo deveria preocupar-se com assuntos jurídicos de empresas privadas se, em tese, elas não tem nada que ver (neste tema) com o Estado e vice-versa? Desde o dia de sua posse onde CEOs de várias big techs estadunidenses compareceram à cerimônia, o governo de Donald Trump tem tido relações extremamente próximas com as gigantes da tecnologia, inclusive com elas participando ativamente de reuniões e influenciando em negócios econômicos e políticos do país; o tarifaço do Brasil é um exemplo disso, como mostrado anteriormente.
ceos presentes na posse
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Zuckerberg



Tim Cook

Sundar Pichai
Jeff Bezos
Elon Musk
Shou Zi Chew
“Essas empresas funcionam como company state, a Companhia das Índias. Elas pegam a sua legislação, as regras que elas criam e querem enfiar, obrigar países a seguirem as regras que elas criaram, e não se adaptarem às regras do país, à lei e à legislação do país”
Reynaldo Aragon
Company state foi um estilo de empresas vinculadas e apoiadas pelo Estado com o objetivo de realizar comércio baseado na colonização de territórios além-mar das metrópoles durante os séculos XVII e XIX. Essa discussão tange o assunto de colonialismo de dados, termo recente para explicar a exploração de dados e informações pessoais de pessoas do mundo inteiro feita por big techs com o objetivo de lucrar com anunciantes, venda de dados e qualquer comércio envolvendo esse tipo de produto. Retomando ao assunto anterior, Reynaldo pontua:
"A gente fala muito de colonialismo de dados. Só que se existe no mundo [...] um Estado-nação que é uma colônia dessas megacorporações é os Estados Unidos. Essas mega corporações tomaram conta de toda a máquina, de todas as estruturas e engrenagens do sistema americano"
Reynaldo Aragon
A forma como as big techs de tecnologia abocanharam o sistema político americano parece ter dado um aval mundial para isso tentar ser replicado em outros países, e isso inclui o

CEOs de big techs americanas durante a cerimônia de posse do presidente dos EUA Donald Trump | Reprodução/The New Yorker
Brasil. Entretanto, o que pode ser visto praticado por vários setores do Estado brasileiro nos dias de hoje é uma grande letargia — às vezes, até proposital — em relação à uma jurisdição que proteja os interesses públicos e nacionais. As megacorporações já parecem estar se apossando do aparelho estatal no Brasil; e o pior é que isso pode estar sendo feito com aval legislativo.

…são políticos que estão ali [no Congresso] representando interesses de elite; muitas das vezes, nesse caso, internacionais, que querem tomar conta do Estado, da própria máquina pública, pegar dinheiro público e o Brasil, como a gente sabe muito bem, é um dos principais polos da web no mundo da Internet, do universo digital, tanto de produção quanto também de utilização desses ferramentas.
Reynaldo Aragon
Congresso brasileiro | Reprodução/Folha de S. Paulo
Como pontuado por Reynaldo, o Brasil é um país estratégico para a geopolítica digital; situado entre as nações que mais passam tempo na Internet e redes sociais, além de possuir uma indústria informacional relativamente significativa, o país há muito tempo atrai olhos e investimentos nesse ramo. Porém, a participação nacional ainda é tímida, embora tenha alcançado resultados importantes como o portal gov.br, juntando informações pessoais e assuntos burocráticos num sistema seguro, e o Pix, método de pagamento digital. Não é à toa que movimentos políticos internos, uma hora ou outra, cederiam para big techs estrangeiras a capacidade nacional do país.

Dados recolhidos de 20 países e 20 mil usuários | Nossa autoria; fonte: NordVPN
Mas o que deve realmente ser apresentado com essa discussão é que, diferente de semicondutores e servidores, o Brasil possui sim a capacidade de produzir uma legislação concreta e que forneça segurança e soberania ao país; os exemplos, inclusive, já existem. O Comitê Gestor da Internet no Brasil, de 1995, foi uma verdadeira vanguarda que pavimentou o caminho para leis e normas relacionadas ao ambiente digital no país; o problema é que todos os esforços foram rapidamente abandonados nos anos 2000. O Marco Civil da Internet, de 2014, até pode ter retomado os debates sobre isso, junto com a Lei Geral de Proteção de Dados em 2018, mas o estrago já estava feito. Produzir legislações do meio digital em plena década de 2020 é importante e bem-vindo, mas quando as big techs já controlam espaços governamentais e começam a executar funções do Estado, não há muito o que possa ser feito para reverter a situação.
a questão dos data centers
Há 40km de Fortaleza, no Ceará, e às beiras de uma lagoa indígena tradicional, um data center recebeu o aval para ser construído em uma região que é palco de disputas legais e imobiliárias. A big tech chinesa ByteDance — dona do TikTok, aliás — anunciou investimentos bilionários para a construção e para o uso do data center em terras cearenses; o terreno comprado já possui até espaço para uma futura expansão.
A notícia foi veiculada, inclusive por meios oficiais do governo do Ceará, com muito entusiasmo, afinal é um investimento importantíssimo em tecnologia, não? Bom, o que se observa de início com as informações disponibilizadas e presentes no assunto, a situação prenuncia uma preocupa-

Imagem de satélite do Google Earth da região do data center | Nossa autoria
ção sobretudo ambiental. O data center está numa região contestada entre povos indígenas como território legal deles, enquanto a indústria afirma que o local é uma ZPE, isto é, Zona de Processamento de Exportação, um tipo de área criada para ser livre de certos impostos, com incentivos fiscais para a exportação. Justamente por esse motivo, diversas indústrias e portos estão distribuídos na região, que abriga mata costeira, praias e lagoas.
De início, órgãos ambientais liberaram a construção; entretanto, o Ministério Público Federal (MPF) logo pediu, no final de 2025, uma revisão mais robusta dos impactos ambientais da obra. Em junho de 2026, o povo indígena Anacé ocupou o canteiro de obras do data center como protesto, alegando que a construtora estaria “desrespeitando as regras da Organização Internacional do Trabalho” e que teria “confirmado a construção sem consulta prévia com a população”. A revisão pedida pelo MPF já foi concluída, mas os resultados não foram liberados; enquanto isso, outros investimentos de data centers foram anunciados no Ceará, inclusive com uma quantia de dinheiro maior que o citado anteriormente.
Reynaldo Aragon
Reynaldo nos explica que os países do Norte Global, ou seja, em sua maioria países da Europa e América do Norte, sabem muito bem dos impactos ambientais da instalação desse tipo de infraestrutura e a escolha do Brasil para as construções não é por acaso. Como o país não possui uma indústria forte o bastante para poder produzir suas próprias tecnologias, ficamos reféns de investimentos estrangeiros que, em muitos casos, podem abusar do nosso meio-ambiente, da nossa mão de obra, da nossa economia e de nossos dados.
A discussão sobre essas empresas praticarem colonialismo de dados é reacendida; discute-se como um governante, um político, poderia recusar a oferta de um investimento tecnológico no país. Ele poderia até ter total ciência dos riscos, mas, o que ele poderia fazer? Há uma pressão social e política no tema que se alia às próprias razões estruturais do porquê o Brasil depender de tecnologia estrangeira, de indústrias estrangeiras.
O Brasil não é só um país estratégico no âmbito informacional, mas no econômico também: com uma mão de obra barata e investimentos recebidos rapidamente por governos, a nação acaba por virar um paraíso, um oásis, para a exploração do Norte Global. Não precisaria nem ser comentado o quanto isso é crítico para a soberania nacional.
O mundo busca encontrar um hub ideal para a implementação eficaz e barata de seus data centers. Como já mencionado, o Brasil se encontra no meio dessa batalha para manter sua soberania e ter acesso a essa tecnologia. O Ceará, como vários estados do Brasil, tem se mostrado um grande polo para empresas internacionais por oferecer diversos atrativos:
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a convergência de cabos submarinos localizados no litoral cearense ou próximo a ele, possibilitando menor latência (tempo de resposta) dos data centers e uma conexão mais rápida e estável com os Estados Unidos e a Europa;
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a isenção tributária para GPUs (placas de vídeo de alta performance utilizadas no treinamento de inteligências artificiais), que reduz significativamente o custo de montagem desses centros; o excedente de energia renovável, já que o Ceará não consome toda a energia solar e eólica produzida e a disponibiliza a preços reduzidos;
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a disponibilidade hídrica, pois esses equipamentos, de tamanho colossal e em processamento constante, exigem resfriamento intenso, e a água funciona como

um método mais barato e eficiente que o ar-condicionado; os incentivos da Lei do Bem, lei federal que concede benefícios fiscais para empresas que investem em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica;
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e as ZPEs (Zonas de Processamento de Exportação), áreas com tributação reduzida e simplificação burocrática.

Mas os benefícios aos estrangeiros carregam riscos aos compatriotas, pois o Brasil precisa abrir mão de diversas coisas além dos já citados. A instalação de um data center em região sensível à área indígena gera graves disputas de interesses entre as comunidades locais e os objetivos do Estado e das empresas. No Ceará, destaca-se o conflito com o povo Anacé, que reivindica o território como tradicional. Os Anacé afirmam que as obras começaram sem a consulta prévia, livre e informada, o que motivou protestos e a ocupação do canteiro em junho de 2026.
Protesto do povo Anacé contra o data center a ser construído na região | Reprodução/Thiago Gadelha
Mas os benefícios aos estrangeiros carregam riscos aos compatriotas, pois o Brasil precisa abrir mão de diversas coisas além dos já citados. A instalação de um data center em região sensível à área indígena gera graves disputas de interesses entre as comunidades locais e os objetivos do Estado e das empresas. No Ceará, destaca-se o conflito com o povo Anacé, que reivindica o território como tradicional. Os Anacé afirmam que as obras começaram sem a consulta prévia, livre e informada, o que motivou protestos e a ocupação do canteiro em junho de 2026.
Um dos pontos centrais na instalação de data centers estrangeiros em solo nacional é a soberania. Apesar de todos os atrativos oferecidos, as big techs detêm os equipamentos em território brasileiro, utilizam recursos nacionais e controlam dados digitais do país, enquanto o Estado possui pouco ou quase nenhum controle sobre armazenamento e uso dessas informações. Isso cria uma dependência arriscada, especialmente para dados sensíveis de governo, Receita Federal, segurança e saúde.

Projeto do data center cearense | Reprodução/Bahia Econômica
Diante disso, investir em data centers 100% nacionais seria o caminho? Segundo Carla Bonato Marcolin, entrevistada especialista em data centers, não necessariamente. O mais adequado no momento seria priorizar uma regulamentação mais robusta e um controle mais rigoroso dos dados, que exijam contrapartidas concretas, como o compartilhamento de capacidade computacional com universidades e instituições de pesquisa brasileiras, além de regras claras de localização e proteção. Essa exigência de compartilhamento de infraestrutura é vital para a pesquisa nacional. Segundo Carla, a disparidade tecnológica é imensa: enquanto uma universidade brasileira de ponta possui cerca de 8 ou 9 placas de processamento de IA, um único data center comercial opera com
com dezenas de milhares. O acesso a essa capacidade, que o Estado não tem recursos para comprar, seria uma compensação justa pela exploração do território e dos recursos naturais brasileiros.
Ao contrário do que a opinião geral e muitos políticos propagam, esses data centers, embora permitam manipular e armazenar dados sensíveis, não trazem tantos benefícios adicionais. Eles geram poucos empregos de longo prazo — apenas durante a fase de construção —, criam pressão sobre o equilíbrio de recursos hídricos e energéticos e colocam governantes em uma posição delicada: é difícil recusar grandes investimentos, que viram oportunidade de autopromoção política, com promessas de avanço tecnológico, enquanto os impactos negativos são minimizados em troca de mais visibilidade e votos. Além da baixa geração de empregos, Carla destaca que, localmente, a instalação dessas estruturas pode ser prejudicial aos moradores. O barulho constante dos sistemas de resfriamento é uma reclamação comum e o impacto econômico imediato para a vizinhança é a desvalorização dos imóveis, que podem chegar a perder metade do valor de mercado, já que a presença de um data center degrada a qualidade de vida ao redor.
Porém, o questionamento principal permanece: até que ponto esse avanço tecnológico é realmente benéfico para o país e sua população, se a maior parte dos ganhos fica no exterior e os custos recaem sobre o território nacional?
Idealmente, o Brasil deve priorizar suas comunidades, considerar os impactos sobre a população, estabelecer e cumprir uma regulamentação rigorosa para a chegada dessa tecnologia; só assim o Estado poderia utilizar parte da capacidade computacional em pesquisas e objetivos acadêmicos de universidades federais e estaduais, ao mesmo tempo em que impõe normas duras de preservação ambiental e mitigação de efeitos negativos.
Entretanto, devemos ser mais “pé-no-chão” e compreender a realidade de fato antes de partir para conclusões que possam acabar se mostrando incabíveis. Retomando o que havia sido dito anteriormente, o Brasil possui uma alta capacidade tecnológica que é muito explorada externamente, mas pouco internamente; retomando, agora mais anteriormente, o que Reynaldo havia nos dito, as iniciativas de software livre como, por exemplo, sistemas baseados em Linux, e de segurança digital como as presentes nos sites governamentais (gov.br, de exemplo) deveriam ser modelos a serem seguidos institucionalmente.
Por exemplo, até hoje se usa Microsoft (Windows) dentro de repartições públicas federais, o que já era para ter sido tudo Linux lá atrás, lá na década de 90. Era, inclusive, Linux; depois eles abriram para a Microsoft e acabou toda a soberania.
Reynaldo Aragon
o que fazer?
A sensação que fica é que perdemos o trem, ou então que pegamos o trem errado e agora já estamos longe demais para voltar atrás. Mas essa discussão toda não pode terminar nesse pessimismo, até porque não faria nem sentido discuti-la. De pouco em pouco, o governo federal vem dando indícios de uma reforma da tecnologia institucional com softwares próprios do país; foi assim com o Pix, com o MEC Livros, com o Tela Brasil e com o gov.br. São nessas coisas que se vê o potencial informático brasileiro, e elas, além do orgulho, nos acendem um alerta para que esses esforços não só continuem como ganhem mais força e realmente contribuam para a soberania nacional.
Se o problema infraestrutural é complexo, existem outros caminhos para desviar dele. Construir uma base segura de dados para ser usada em websites oficiais (nos moldes do gov.br) seria um bom primeiro passo para assegurar que informações pessoais não estarão nas mãos de empresas estrangeiras; além disso, elas estariam não só sob regimento de um ambiente digital brasileiro, mas da esfera legislativa brasileira de dados.
Aliás, falando de legislação, esse seria um outro ponto importantíssimo. As leis brasileiras de dados, além de estarem defasadas, se encontram atacadas, até mesmo internamente. Um projeto político que visasse dar corpo a um plano legislativo de dados concreto e que realmente defendesse os interesses nacionais seria a espinha dorsal que seguraria a soberania informacional brasileira; porém, não se vê isso atualmente — na verdade, percebe-se que há o contrário:
"Hoje você tem um Congresso completamente avesso aos interesses nacionais e que protege os interesses das corporações e não os nossos interesses como sociedade. Então você não consegue avançar numa legislação"
Reynaldo Aragon
Esse é talvez o maior obstáculo da soberania brasileira: interesses contrários à ela sendo promovidos por representantes políticos. A forma de resolver isso também é complexa, mas a resposta no fim sempre será a pressão política, a demanda populacional por um direito garantido na Constituição. Em suma, uma cobrança por projetos de leis feitos para o povo brasileiro, e não para big techs americanas.
O Palácio do Alvorada foi subitamente chacoalhado no início do mês de julho de 2025 após a notícia de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia assinado uma Ordem Executiva de forma emergencial impondo ao Brasil uma taxa em sua exportação de produtos que chegava a 50%; número esse que, efetivamente, representa um comércio quase ineficiente devido à uma tarifa tão alta.
O anúncio oficial da medida pelo governo dos Estados Unidos ecoou na mídia, especialmente por ter sido acompanhado de uma carta escrita pelo próprio presidente do país com um tom agressivo e cheio de alegações, surpreendendo até os maiores economistas e cientistas políticos do país. O caráter dessas medidas logo foi decifrado pela imprensa e pelo próprio governo brasileiro: havia uma motivação política, e ela era atacar as instituições brasileiras.